André Silva – Volátil
A Galeria Sete apresenta a exposição “Volátil”, uma exposição do artista plástico André Silva, que inaugurará sexta, dia 17 de abril, das 17h às 20h, e estará patente até ao dia 16 de maio de 2026.
A entrada é livre e todos são bem-vindos!
Na folha de sala da exposição, pode ler-se uma análise de Raquel Guerra:
“Anoiteceu no caminho, quando eu ainda precisava da luz do dia
A exposição Volátil, de André Silva (Venezuela, 1980), constitui-se como um campo de tensão
permanente entre memória, matéria e mundo. Nascido na Venezuela e residente em Portugal, o
artista transporta consigo uma experiência fragmentada de pertença, marcada pela deslocação
geográfica e pela sedimentação do tempo. Essa condição atravessa toda a exposição, não como
narrativa linear, mas como um conjunto de vestígios, camadas e ruínas que se acumulam e se
transformam em linguagem visual.
Volátil propõe uma leitura do presente enquanto estado instável, precário e suspenso. Há uma
sensação persistente de iminência — como se algo estivesse prestes a acontecer, mas nunca se
concretizasse plenamente. Essa suspensão não é apenas conceptual: materializa-se nas
superfícies das obras, na escolha dos materiais, na forma como os elementos são organizados e
expostos. A própria ideia de volatilidade aponta para aquilo que escapa, que se dissipa, que não
se fixa — uma metáfora clara para o mundo contemporâneo.
A série Estado de pânico (#2, #4, #5, #6 e #7) é central nesta exposição. Cada peça é um políptico,
composto por múltiplos elementos independentes, cuja disposição pode variar de montagem para
montagem. Esta característica reforça a ideia de instabilidade e de construção contínua de sentido.
As obras, com exceção da #7, são apresentadas sobre prateleiras de inox, o que lhes confere um
carácter quase industrial, evocando simultaneamente arquivo e exposição provisória.
Os materiais utilizados — tinta acrílica, óleo, carvão, grafite, gesso acrílico, estuque cerâmico,
folhas de jornal e transferências de fotocópias — constroem superfícies densas, estratificadas. A
transferência de imagens provenientes de jornais e revistas com mais de vinte anos é
particularmente significativa: estas imagens surgem desgastadas, semi-apagadas, como
espectros de um passado que insiste em permanecer. Esta dimensão fantasmática introduz a ideia
de ruína — não apenas física, mas também histórica e simbólica.
A peça Estado de pânico #6, com subtítulo Ecos do passado, destaca-se pela sua dimensão
afetiva. As imagens transferidas provêm de fotografias relacionadas com a construção de uma
habitação onde o artista passou parte da infância. Este gesto de incorporação de memória pessoal
dentro de um discurso mais amplo sobre o estado do mundo cria um ponto de ancoragem íntimo.
A ruína, aqui, não é apenas metáfora social ou política, mas também emocional. O passado
emerge como fragmento, como eco, nunca como totalidade recuperável.
A série, no seu conjunto, remete para uma paisagem urbana industrial decadente. Esta evocação
aproxima-se, de certo modo, do imaginário decadentista do século XIX, onde a ruína e a
degradação são entendidas não apenas como fim, mas como condição reveladora. Em Estado de
pânico, essa decadência funciona como metáfora do presente: um mundo saturado de imagens,
de informação e de conflitos, onde a história parece acumular-se sem resolução.
No entanto, há uma subtil abertura à esperança em Estado de pânico #7. A presença de uma
imagem de uma criança introduz uma possibilidade de futuro, ainda que frágil. Esta figura surge
quase como um contraponto à densidade e ao peso das restantes obras da série. Não resolve a
tensão, mas insinua a possibilidade de continuidade.
A ideia de deambulação — próxima da deriva situacionista — atravessa estas obras. O olhar do
espectador é convidado a circular entre fragmentos, a estabelecer relações provisórias, a perder-se
e a reencontrar-se. Não há um ponto fixo de leitura, mas múltiplas entradas e saídas.
Esta lógica prolonga-se em Sobrevivência urbana #1 e #2. Estas pinturas, realizadas em tinta
acrílica sobre tela de linho cru, apresentam pormenores de uma caçamba — um contentor
associado a resíduos de obras. A escolha deste motivo é particularmente significativa: trata-se de
um objeto ligado à destruição, à renovação e ao descarte. Aqui, a caçamba torna-se metáfora da
vida contemporânea, marcada pelo excesso e pelo abandono. Mais uma vez, a paisagem urbana
surge como cenário de desgaste, onde os vestígios da atividade humana se acumulam sem ordem
aparente.
A obra que dá título a este texto — Anoiteceu no caminho, quando eu ainda precisava da luz do
dia — ocupa um lugar singular na exposição. Embora constituída por um único elemento, a sua
composição resulta da junção de fragmentos de telas trabalhadas e abandonadas ao longo de
mais de duas décadas (2002–2023). Esta acumulação temporal materializa-se numa superfície
onde diferentes momentos coexistem.
Agrafada diretamente na parede, a obra apresenta-se como uma paisagem urbana anónima que
se assemelha a um mapa. No entanto, trata-se de um mapa instável, onde as referências são
ambíguas. Elementos geométricos convivem com formas identificáveis — um lavatório,
fragmentos de arquitetura, estruturas que evocam mangas de acesso aeroportuárias. A escala é
incerta, as proporções diluem-se, e a representação afasta-se de qualquer noção convencional de
realismo.
O espectador é colocado numa posição de deriva, navegando numa superfície onde nada é
exatamente o que parece. Esta descontinuidade gera uma sensação de camuflagem, de ausência
de lugares específicos. O título, profundamente poético, reforça esta experiência: sugere um
momento de perda, de desencontro entre necessidade e realidade, entre luz e escuridão. É, talvez,
uma das formulações mais claras da condição contemporânea proposta pela exposição.
Em Entre fronteiras, André Silva aborda diretamente a dimensão geopolítica do presente. A obra,
composta por várias telas dispostas sobre uma prateleira de inox, apresenta bandeiras de
diferentes países — Palestina, Israel, Rússia, Ucrânia, Venezuela, Irão e Estados Unidos. No
entanto, estas bandeiras são alteradas: as cores são modificadas, os símbolos são subvertidos. A
bandeira dos Estados Unidos, por exemplo, mantém a sua estrutura, mas perde as estrelas,
esvaziando-se do seu simbolismo nacional.
Esta operação revela a fragilidade das identidades políticas e a artificialidade dos sistemas de
representação. As bandeiras, enquanto símbolos de pertença e poder, tornam-se instáveis,
ambíguas. A única que mantém as cores originais é a da Ucrânia, o que pode ser interpretado
como um comentário sobre a atualidade e a persistência de certos conflitos.
A instalação Zapping introduz uma dimensão sonora e imersiva na exposição. Construída a partir
de uma antena parabólica invertida, integra uma casa em miniatura com jardim, árvores, um cavalo
e painéis solares. Do interior da casa emana uma luz colorida, semelhante à de um televisor,
acompanhada por uma composição sonora em loop com cerca de oito minutos.
O som é constituído por fragmentos de programas televisivos, música, publicidade, trânsito, filmes
e telejornais. Este fluxo contínuo de estímulos reproduz a experiência contemporânea de consumo
mediático: fragmentada, acelerada, saturada. A casa, enquanto espaço de intimidade, torna-se
permeável a este ruído constante. A antena invertida sugere uma inversão de sentido — não
apenas receção, mas também dispersão. Mais uma vez, a ideia de volatilidade manifesta-se.
Por fim, a série Malevich propõe uma reflexão sobre o sistema artístico e o estatuto da imagem.
Inspiradas no “Quadrado negro” de Kazimir Malevich, estas obras estabelecem um diálogo
provocador entre arte e cultura de consumo. A associação ao design do maço de tabaco Marlboro
evidencia uma relação entre pintura e objeto, entre bidimensionalidade e tridimensionalidade,
entre ficção e realidade.
Esta série funciona como uma meditação sobre a reprodutibilidade e o simulacro. Ao citar e
reconfigurar uma obra icónica da história da arte, André Silva questiona o lugar da pintura no
presente, bem como os mecanismos de legitimação e circulação das imagens.
No conjunto, Volátil apresenta-se como uma exposição profundamente coerente, onde cada obra
contribui para a construção de um discurso sobre o mundo contemporâneo. A decadência, a ruína,
a fragmentação e a instabilidade não são apenas temas, mas condições estruturais da prática do
artista.
Importa também sublinhar o papel do atelier enquanto espaço de isolamento e observação. É
nesse lugar fechado que André Silva constrói a sua leitura do mundo, através de um processo que
revela uma atenção minuciosa aos materiais e às técnicas. A escolha das tintas, das telas, dos
suportes — tudo participa na construção de sentido.
Há, portanto, uma tensão constante entre interior e exterior: entre o espaço íntimo do artista e a
vastidão do mundo que observa. Essa tensão atravessa toda a exposição, reforçando a sensação
de que estamos perante um momento suspenso, à espera de algo que talvez nunca chegue a
acontecer — ou que já esteja, silenciosamente, em curso.
Volátil não oferece respostas. Propõe, antes, um estado de atenção, uma consciência aguda da
complexidade do presente. Num mundo marcado pela incerteza, André Silva constrói uma
linguagem que não procura estabilizar, mas sim expor as fissuras. E é precisamente nessas
fissuras que a obra encontra a sua força.
Raquel Guerra
Abril de 2026″
ANDRÉ SILVA
Nasceu na Venezuela em 1980.
Licenciatura em Artes Plásticas-Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Bolseiro do Programa Sócrates/ Erasmus na Facultad de Bellas Artes de la Universidad del Pais Vasco.
Curso de Especialização em Intervenções Artísticas em Espaços Públicos e Produção de Obras Site Specfic (Universidade Lusófona).
Co-Fundador do Projecto Colector.
Expõe regularmente desde 2005.
EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
2026
Volátil, Galeria Sete, Coimbra
2025
Labirinto, inserido no ciclo o “Desenho como pensamento” com curadoria de Alexandre Baptista,
Biblioteca Municipal Manuel Alegre, Águeda
2024
Espectro, Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
2022
Palimpsesto, Sput&nik the window, Porto
2020
Entre o espaço e o poder, apanha-me se puderes, Sput&Nik the window, Porto
2018
Entre o espaço e o poder, apanha-me se puderes, Galeria Palácio Cadaval, Évora
2011
Claudicante, Sput&Nik The Window, Porto
Em Lugar Nenhum, Galeria ACERT, Tondela
2010
Em Lugar Nenhum, Galeria Arthobler, Porto
Em Lugar Nenhum, Galeria Arthobler, Lx Factory, Lisboa
2009
Virtus, Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
2006
Dromos, Galeria 24b, Oeiras
EXPOSIÇÕES COLECTIVAS
2024
Volátil, Coleção da FBAC, curadoria de Elisa Noronha, Galeria Bienal de Cerveira
2022
Aliar uma solidão a outra, curadoria de Joana Mendonça, aSede, Porto
XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, Vila Nova de Cerveira
2020
TRABALHO CAPITAL # GREVE GERAL uma nova exposição-instalação para um dia e uma noite,
comissariada por Paulo Mendes a partir da Coleção Norlinda e José Lima no Centro de Arte Oliva
2019
10 / 40 Exposição Colectiva 10 anos de Kubikgallery, Porto
10º Aniversário Sput&Nik, Porto
Bienal de Coruche-Percursos com arte, Coruche
2018
Book Hop, curadoria Jorge Simões e Paulo Corte-Real, Casa Garden, Macau
XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira, Vila Nova de Cerveira
2017
P de Pintura, 1ª edição, Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Póvoa de Varzim
2016
Periplos/ Arte Portugués de hoy, Cac Málaga, Málaga
Book Hop, no CAV, Coimbra
2015
Projecto colectivo O passeio, a escuta e o respirar da acção, curadoria José Maia, Maria Côrte- Real e
Susana Rodrigues, Espaço MIRA, Porto
Da(imagem)imaginação, Bliblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
2014
Cheia, 3ª edição, Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Póvoa de Varzim
Home Work, Galeria Bang Bang, Lisboa
2012
Maia, Cidade em Performance 0.2, CENTR’ARTE, Maia
2011
A Quatro, Galeria IPSAR – Instituto Portughese di Sant’António, Roma
Maia, Cidade em Performance, Fórum Municipal da Maia
MUSAO Welcome Oporto, Museum auf Abwegen Ottakring, Viena
Livro Mundo, Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
Munich Contempo, International Art Fair Munich com a Galeria Arthobler
BLOOOM Cologne, International Art Fair Munich com a Galeria Arthobler
2010
Munich Contempo, International Art Fair Munich com a Galeria Arthobler
Huma sorte de academia, Projecto de edição gráfica, Museu da FBAUP, Porto
Arte Lisboa com a Galeria Arthobler
Projecto Colector, Cinemas Medeia Filmes, Porto
2009
T0, Galeria Arthobler-Porto, PT
VAB_Art_Fest, Velha-a-Branca, Braga
Arte Lisboa com a Galeria Arthobler
Projecto Colector, Casa Museu Abel Salazar, S. Mamede de Infesta
Arte Contemporânea na Garagem da Vizinha, Maia
Finalista do Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores 2009, no Chiado 8, curadoria Miguel
Wandschneider, Lisboa
Collection Madeira Corporate Services – Drawings: A-Z (Museu da Cidade da Lisboa), curadoria
Adriano Pedrosa, Lisboa
Projecto Colector, Museu D. Diogo de Sousa, Braga
Olhar 20-30, Galeria Paulo Amaro, Lisboa
2008
Galeria Reflexus, Porto
Arte Lisboa com a Galeria Paulo Amaro, FIL
Opções & Futuros # 3 – Arte Contempo, curadoria Miguel Amado, Lisboa
2007
Iniciativa X, AC – Arte Contempo, comissariado de Filipa Oliveira e Miguel Amado, Lisboa
Arte Lisboa com a Galeria Paulo Amaro, FIL
Volta Show 03 com a Galeria Paulo Amaro, Basel
Arco_Madrid Feira Internacional de Arte Contemporáneo com a Galeria Paulo Amaro, Madrid
2006
Iniciativa X, AC – Arte Contempo, comissariado de Filipa Oliveira e Miguel Amado, Lisboa
Participa no Projecto ArtskoolGozSouth, programado com um itinerário do norte para o sul da Europa
(Reino-Unido, França, Portugal, Espanha, Itália, Grécia), visa promover a ligação entre as escolas de arte
por meio de uma exposição itinerante prevista entre 2006 e 2007
Urbanismo: Linhas & Contornos, Galeria 24b, Oeiras
2005
Arte Lisboa com a Galeria 24b, FIL, Lisboa
School Out / Out of School, Galeria Novo Ciclo ACERT, Tondela
School Out / Out of School, Galeria Arthobler, Porto
XIII Bienal Internacional de Vila Nova de Cerveira, curadoria Baltazar Torres, Tuy
2004
Workshop Animação de recortes e volumes sob orientação de Laurent Pouvaret (professor da Escola La
Poudrière – França), Cinanima, Espinho
2001
Jovens Artistas’01, Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
Instalação, Artemosferas, Porto
PRÉMIOS E MENÇÕES
2022
Prémio Aquisição Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira na XXII Bienal Internacional de Arte de
Cerveira
2019
Residência Bienal de Coruche-Percursos com arte, Coruche
2017
Selecionado para o PEAC 2017 Portuguese Emerging Art Catalogue (cat)
2009
Finalista do Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores 2009, curadoria Miguel Wandschneider, no
Chiado 8, Lisboa
2001
Jovens Artistas’01, Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, ganhou o prémio na categoria
instalação e uma Menção Honrosa pelo seu trabalho de pintura
COLEÇÕES
Fundação PLMJ
Coleção Luiz Augusto Teixeira de Freitas – Coleção de Desenhos da Madeira
Coleção Marin.Gaspar
Cac Málaga
Luciano Benetton Collection
Coleção Fundação Bienal de Cerveira
Coleção Marin.Gaspar
Coleção Joaquim Ferro
Coleção ER
Lehmann Collection
Coleção José Costa Rodrigues
Coleção Ângelo e Damião
The Godinho Collection
Coleção Rita Talhas e Gonçalo Lima
Norlinda e José Lima
Coleções privadas em Portugal, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Itália, Luxemburgo e Suíça
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