Smoke – António Trindade

Smoke – António Trindade

Convite António Trindade - Smoke v2-03

Smoke de António Trindade

 

A Galeria SETE apresenta a exposição Smoke de António Trindade que terá início no dia 9 de Fevereiro 2019, sábado, pelas 17h, e prolonga-se até ao dia 15 de Março de 2019.

Smoke

“A existência e a vida humana contemporânea, sobretudo nas grandes cidades, permitem a interligação, o confronto ou a junção de paradoxos.
Ao mesmo tempo que viaturas e fumadores poluem o ar e a nossa atmosfera envolvente, muitas vezes debaixo de um imenso stress, é ao mesmo tempo
interdito o hábito tabágico dentro de espaços públicos e privados. Evidentemente que é claro que estes aspectos desencadeiam e aceleram outros movimentos
e acções nestas sociedades modernas, pós-modernas ou contemporâneas. Neste sentido, uns aproveitam-se de outros onde tudo parece servir para se
ganhar rendimentos e lucros. Surge assim também a oportunidade da exploração do sofrimento e das fragilidades humanas, de seus prazeres, caprichos e vícios.
Empresas tabaqueiras e outras empresas criam e publicitam em cadeia novos produtos no mercado, iludindo consumidores em prol de interesses
económicos e fiscais. Toda a gente sabe que o tabaco é um dos “instrumentos” que mais contribui para as receitas dos Estados dos respectivos países.
Constitui um presente envenenado acessível à maior parte da população. Há assim o paradoxo e erro desumano dos Estados angariarem fundos através
de altas taxas de impostos mediante produtos que prejudicam os próprios contribuintes que sustentam os próprios Estados. A Philip Morris entretanto
criou um novo produto, o tabaco aquecido, em confronto com as crescentes campanhas antitabágicas, com objectivos sobretudo económicos, relegando
questões mais importantes para segundo plano. Mas como humanos, temos os nossos vícios, os nossos hábitos, e esses são sempre explorados por terceiros,
como acima referimos. O tabaco é um desses vícios ou hábitos onde o fumo é resultado da respectiva combustão e também da combustão de muitas essências
e químicos que com aquele se aglutinam. No entanto, o fumo acaba por ser uma companhia para muitos, uma repulsa e ódio para outros e ainda e algo
contraditoriamente e simultaneamente, uma companhia e uma repulsa. Para alguns é uma balança e um elemento no equilíbrio vital.

Nesta série de trabalhos, ou na maior parte deles, cujo projecto intitulo Smoke, apresento figuras recolhidas em ambientes sugeridos sem
interferências de terceiros, em lugares vazios, como que abrigadas de eventuais ameaças exteriores, entendidas em sentido lato. Estão como nos
seus lugares próprios, em descompressão, em descanso, em êxtase, em repouso, livres de qualquer ameaça, força, ou de incómodos e acções exteriores:
deliciando um cigarro, dormindo uma sesta, meditando e reflectindo no final de um dia de trabalho, longe da cidade num fim-de-semana, mas sobretudo
fora dos cenários habituais que as interligam às suas actividades diárias e de rotina das cidades. Estão como que nos seus lugares onde podem e têm tempo
de fazer o que querem, nas suas escapes, nas suas brincadeiras, nos seus vícios, sem ser incomodadas. Nestes trabalhos e nas sub-séries apresentadas,
como The Nap, The Smokers, Girls and Cigarettes, L´agent Provocateur, The Sleepwalker, ou em The Inner Storm, são dados à visibilidade esses estados
de libertação da nossa condição humana. Por outro lado, como nunca fui indiferente à História de Arte e à questão da perspectiva linear descoberta no
Renascimento, e tendo uma predilecção pela pintura clássica e barroca, também aqui aproveitamos a oportunidade de parodiar e descontextualizar alguns
“textos” que conhecemos da própria História de Arte. Esses textos-obras evocam a perspectiva através do escorço acentuado das figuras e também o claro-escuro.
Há assim referências com deslocamentos deliberados em relação, por exemplo, a obras de Andrea Mantegna e de Annibale Carracci, do Renasciment
o ao Barroco, citando directa e indirectamente, mas desviando e deslocando os conteúdos originais para cenários mais actuais. São pontos de referência,
mas são também pontos de passagem ou de chegada e, deste modo, naturalmente que surgem transformações e passagens do sagrado ao profano. Por outro
lado, a luz e a dinâmica do fumo, que sobrepõe parcialmente os cenários e algumas figuras, acompanham também o jogo da representação-negação da
própria técnica da pintura empregue, que desfoca os seus elementos através de arrastamentos pacientemente e deliberadamente realizados. Nas sub-séries
L’agent Provocateur, as figuras representadas provocam audiências ausentes, mas como se aquelas estivessem presentes, porque estão protegidas nos seus
lugares, nos seus ambientes, em posições e estados eróticos, afastando ou expelindo fumo para audiências ausentes, mas que assim as liberta da insatisfação
diária, da insatisfação das suas actividades, da insatisfação do seu trabalho, da insatisfação no ódio contra terceiros nos confrontos diários das suas actividades,
expurgando más energias para o exterior. Há assim a metáfora dum teatro visual das próprias figuras, abrigadas e não incomodadas, interditas a terceiras
que só podem comunicar com o seu consentimento. Smoke adjectiva perigo, mas também e algo paradoxalmente adjectiva descompressão, prazer e liberdade,
que são estados essenciais e vitais da nossa condição humana.”

António Trindade, Lisboa, 2019

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