A duração prolongada do instante – Joana Leitão Salvador e Juliana Julieta

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A duração prolongada do instante – Joana Leitão Salvador e Juliana Julieta

A Galeria Sete inaugura no dia 28 de fevereiro, das 16-20h, a exposição “A duração prolongada do instante” que reúne pinturas de Joana Leitão Salvador e Juliana Julieta.

FOLHA DE SALA

Nesta exposição onde reunimos pinturas de Joana Leitão Salvador (Lisboa,1971) e Juliana Julieta (Porto,1994), duas artistas de diferentes gerações, percebemos que os assuntos representados acontecem num mundo físico (dito, real) como uma sucessão de composições, poses, gestos e movimentos, mas eles não são aqui significativos para  a pintura por poderem ter existido numa certa realidade.

Eles são dignos de serem pintados porque são como ensaios de acesso a uma qualidade, digamos, de duração, que mistura e une memórias do passado à percepção do presente. Assim, eles não são aquilo que possam parecer, a saber, “instantes congelados”, imagens paradas no tempo, onde flores brilham, cabelos flutuam ou braços se movem, mas sim contínuos fluxos de novas consciências onde passados e presentes se fundem em futuros imprevisíveis, em novas criatividades não imaginadas antecipadamente e que dão às artistas possibilidades de renovação dos seus horizontes, sem saírem de si ou da tipologia da sua pintura.

Assuntos plausivelmente reais mas que não vivem totalmente no mundo físico, remetem para a percepção interior conduzida por uma intencionalidade da consciência que procura  o objeto adequado a essa intenção, que bem pode ser uma procura de relação com um outrém significativo e expressar-se por evocações, símbolos, vestígios ou reminiscências que dele existam.

Mesmo para quem o conheça, um outro/outrém não deixa de ser imprevisível,  a alteridade em relação ao conhecimento. No caso de desaparecimento do outrém significativo, a intenção consciente de manter uma relação com ele abre-nos um caminho incessante, obsessivo, na medida em que se vive uma relação com algo que se esquivou para sempre. Talvez isto possa acontecer de modo mais evidente no caso da pintora Joana Leitão Salvador, em relação a sua avó (Menez) e a seu tio (Ruy Leitão), ambos pintores e que não a abandonam na sua pintura.

Nela, é frequente pintar os potes ou jarras de barro com pincéis ou flores que já pertenceram a sua avó, numa sucessão de imagens à volta dos mesmos temas que não representa uma sequência de tempo cronológico e finito que passe, mas um tempo qualitativo alimentado de memórias e de vida atual, a viver-se como imaginário e como real. Por isso as referências também não são um refazer de imagens feitas, são imagens novas num universo interior que se deixa aflorar no gesto consciente de pintar o que ainda dura e logo já é outro, novo. E nisto, como disse Eusébio Almeida1:

          “…uma parte significativa desse mundo da artista nos é poeticamente sugerido através de uma paleta de cores verdadeiramente explosiva e algo semelhante à visionária embriaguez do azul elétrico do céu, da terra e do mar, pois, neste caso, a «poesia é o real absoluto» (Novalis) da sua própria pintura, mas, um real absoluto que pertence à terra.  […] Branco aguarelado, azul oceânico, verde esmeralda, amarelo torrado, laranja pêra e vermelho aveludado são algumas das cores que perpassam pelos interstícios dos seus potes de argila branca ou encarnada, repletos de pincéis impregnados de antigas memórias, mas também pelas suas jarras de porcelana elegantemente decoradas com flores, ou ainda pelas suas semi-estátuas humanas suavemente comandadas por fios invisíveis, quase como se estas procurassem uma rápida e estranha suspeita de liberdade capaz de ultrapassar os limites demasiado incómodos e paradoxais da sua imóvel existência. Mas, neste teatro de ambiguidades também se podem imaginar danças realizadas entre humanos e anjos que se comunicam com deusas do amor (Vénus) elegantemente deitadas em cima de tecidos amarrotados que nos convocam para dentro da sua própria pintura.

[…] Basta abrirmos uma das portadas do atelier da Joana para imaginarmos os seus nadadores, de braços cruzados no ar, em sinal de movimento e de esperança (numa espécie de dança natural das coisas belas, no meio desse espetáculo aquoso das manhãs), ou então a esbracejar em sinal de desespero, ofegantes e indecisos, em cima de bóias salva-vidas ao tentarem salvar-se de um qualquer naufrágio ocorrido em alto mar, tão real e fictício como a própria narrativa de Moby Dick, de Herman Melville (apelando assim a uma espécie de estética da deriva e da navegação, ou estética do naufrágio e da sobrevivência humana).”

Juliana Julieta é pintora mas também é realizadora de cinema experimental. De si própria, diz2:

“ Interessa-me o trabalho manual, a materialidade dos processos e a fisicalidade da pintura enquanto lugar de encontro entre corpo, gesto e matéria. Confio no próprio processo como método: parto frequentemente de estruturas abertas que permitem ao erro, ao acidente e ao imprevisto orientarem o trabalho. Nesse espaço de incerteza, procuro deixar que a pintura revele direções inesperadas, abrindo possibilidades que não seriam antecipáveis de forma racional.

A minha pintura desenvolve-se numa tensão constante entre figuração e abstração, habitando um espaço intermédio onde a imagem permanece em suspensão.

Interessa-me particularmente a multiplicidade de temporalidades que a pintura convoca. Existe o tempo da pintura enquanto processo — um tempo expandido, quase portal, que suspende a cronologia quotidiana e permite aceder a um estado de atenção intensificada. Há também o tempo da imagem, acumulado de memórias, sensações e experiências vividas ou imaginadas, onde passado, presente e aspirações inconscientes coexistem. Por fim, há o tempo condensado na própria superfície pictórica: o ritmo dos gestos, as decisões inscritas nas camadas, os avanços e recuos que permanecem como vestígios materiais do processo. Nesse entrelaçamento, a pintura abre um espaço de acesso a um tempo interior, sensível e não-linear.  […] As imagens procuram evocar estados de potencialidade — horizontes ainda não realizados que coexistem com o presente. […] Pintar é uma forma de habitar o mundo e de o reinventar, produzindo imagens que funcionam como espaços de abertura e transformação. Entre o íntimo e o coletivo, procuro criar obras que sustentem modos mais porosos e relacionais de existir, onde a vulnerabilidade, o cuidado e a interdependência se afirmam como forças estruturantes.”

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